12/06/2021

TV Guadiana

Alentejo em Direto

LITERATURA: "SOBRE PENSAR E ESCREVER…"

<p style="text-align: justify;"> <img alt="" src="images/Carmen/Carmen 2.jpg" style="width: 200px; height: 170px; float: left;" /><strong>Aos Bandos… </strong></p> <p style="text-align: justify;"> Chegavam de autocarro, eram aos bandos, vindos da província com a cabeça cheia de sonhos e fantasias idiotas na cabeça.</p> <p style="text-align: justify;"> As histórias que traziam nas suas pesadas bagagens, eram iguais a tantas outras, mas diferentes daquelas com as quais, dali para a frente, teriam de conviver. Tal era o abismo que separava aquela gente - o tal bando; dos que ali viviam desde que nasceram, e que tinham uma história bem diferente.</p> <p style="text-align: justify;"> Este ainda era o tempo sem internet e facebook, até os telemóveis eram inacessíveis. Lisboa apresentava-se como uma grande oportunidade para todos aqueles que ali acudiam para estudar, viver, e trabalhar. Ana estava exausta, depois de carregar o saco de viagem cheio de roupa para 15 dias, ainda levava consigo uma geleira cheia de comida para atestar o frigorífico lá de casa. O fim-de-semana tinha sido preenchido com miminhos da família, saídas à noite com amigos e algum estudo; as aulas tinham começado há pouco tempo, ainda se estava a ambientar àquela nova rotina.</p> <p style="text-align: justify;"> A viagem de autocarro era enfadonha, quatro horas, sem autoestrada, última paragem no Campo Pequeno, e vá de apanhar um táxi para a Graça, onde ficava o pequeno apartamento alugado. Lá estavam as suas colegas de casa, à espera da paródia que as entretinha pela noite dentro. Os outros colegas, os de Lisboa, não tinham mesmo noção; entraram para a faculdade mas as suas vidas continuaram iguais. A distância que os separava era enorme, a mesa deles estava sempre posta, e a roupa lavada e passada. Em Lisboa havia cinema, teatro, centro comercial, bibliotecas enormes, cinemateca, acesso imediato à cultura, enfim; havia vida e reboliço a cada esquina.</p>

Naquela cidade de província onde Ana tinha vivido a sua infância e adolescência não havia nada disso. Ponto final. A vida era mais mansa, mais genuína, ainda próxima das origens.

As horas, os dias, e os anos passaram, ao ritmo de uma Lisboa que estava na moda, uma Lisboa única, onde tudo era possível. Ana pertence à geração que teve a sorte, de aproveitar a tal democratização do ensino superior em Portugal. Já não eram só as elites a frequentar as universidades e a ter acesso a uma vida diferente. Estava grata por isso; adivinhavam-se tempos bons. Tudo era fácil e promissor.

Estava realizada, o emprego apareceu, a vida era agradável, vieram os filhos, tudo caminhava com a normalidade que se esperava depois do investimento realizado.

Até que um dia veio a crise, a tal crise que assolou o Portugal do século XXI. Tudo desvaneceu, o emprego perdeu-o, o marido teve que emigrar, o banco arrebatou-lhe a casa; os filhos cresceram e os seus hábitos, desejos e vontades encareceram. Ana voltou para casa dos pais, como tantas outras “Anas” por este país fora.“Anas” que foram chamadas de “geração rasca”, e que agora andam “à rasca” para viver condignamente, criar os filhos, ter uma vida que pelo menos condiga com o esforço feito, as pestanas queimadas, as noites mal dormidas e os mimos perdidos. Às “Anas” de Portugal venderam-lhes uma ideia utópica de estabilidade, uma vida em que tudo era exequível e viável.

Agora resta o quê? As exigências de um país em que a província continua a ser provinciana, mas onde se pede às “Anas”, saloias e urbanas que sejam perfeitas. Perfeitas donas de casa, perfeitas amantes, esposas, profissionais, mães, filhas; tudo isto e mais alguma coisa que, um qualquer dia destes, o país “à rasca” se lembre de reclamar.

Lisboa segue cosmopolita e eclética, virada para o Cristo que acolhe o bando.

Deixe uma resposta

Facebook
Twitter
YouTube
Instagram