22/09/2021

TV Guadiana

Alentejo em Direto

LITERATURA: "SOBRE PENSAR E ESCREVER…"

<div style="text-align: justify;"> <strong><img alt="" src="http://localhost:888/images/Carmen/Carmen 2.jpg" style="width: 200px; height: 170px; float: left;" />Vale mais doer...</strong></div> <div style="text-align: justify;">  </div> <div style="text-align: justify;"> Abriu a janela do quarto, chegou-se à frente, meteu a mão ao bolso para apanhar o isqueiro e acendeu o cigarro, lá fora estava um frio de cortar a alma. O cigarro apagou-se e voltou a acendê-lo. Todas as noites a mesma rotina até acender o último cigarro de um longo dia. </div> <div style="text-align: justify;">  </div> <div style="text-align: justify;"> Contemplava a paisagem noturna que sempre lhe apaziguava o coração que de tão acelerado quase lhe saltava pela boca. Ficou ali, de olhos postos no infinito, pensando no que deveria ser e não foi, no que poderia ter tido e não teve, do que deveria ter feito e não fez. Sempre ouvia dizer aos outros que mais vale arrependermo-nos do que fizemos do que daquilo que não fizemos. Desta vez os outros tinham razão, ainda não o tinha entendido muito bem, mas agora percebera o verdadeiro sentido desta simples afirmação.</div>
 
Apagou o cigarro no vaso que estava na varanda e voltou para dentro de casa, estava tudo no mesmo sítio. Sem tirar nem pôr. Tudo impecável. A casa estava em silêncio, não vivia lá mais ninguém, nem sequer um gato, cão ou periquito, que invadissem aquela mansidão. Lavou os dentes, foi deitar-se, mas naquela noite não conseguia pregar olho. O coração batia mais forte que nunca, à cabeça vinham-lhe as histórias da juventude, as recordações de quem tinha sido e já não era; senão uma sombra. Alguma coisa teria que fazer, aquela vida demasiado organizada, mas completamente vazia estava a sufocá-la. Detestava-a. Aquela vida! 
 
Vestiu-se novamente, saiu de casa e foi caminhar. Precisava de ar, precisava de sentir a vida a bater-lhe na cara, mesmo que doesse; mesmo que ferisse; mesmo que se gelasse com aquele frio que cortava a alma.
Sempre vale mais arrepender-se depois de viver. Viver doí, vale mais doer. 

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