25/09/2021

TV Guadiana

Alentejo em Direto

LITERATURA: "SOBRE PENSAR E ESCREVER…"

<div> <strong><img alt="" src="http://localhost:888/images/Carmen/Carmen 2.jpg" style="width: 200px; height: 170px; float: left;" />Apenas me imaginam</strong></div> <div>  </div> <div> Somas de nós próprios. Produto de várias parcelas. Aquilo que mostramos é só uma pequena parte, daquilo que realmente nos constitui enquanto seres completos. </div> <div>  </div> <div> Li a seguinte frase, mas não sei quem escreveu: “Só eu sei quem sou, os outros apenas me imaginam”. Quando vi, concordei imediatamente, é isso mesmo. Os outros percebem parte do meu ser, nunca todo o ser. Ninguém conhece o outro na sua plenitude, nos seus desejos, na sua capacidade, na sua verdade. Sou muito mais do que aquilo que percecionam acerca de mim. </div> <div>  </div> <div> O que eu faço, o que eu visto, o que eu como, o que eu viajo, o que eu compro, os amigos que tenho fazem com que eu pareça algo aos olhos dos outros. Verdade? Nós próprios construímos uma metáfora, construímos um boneco que se parece a nós. Mas na realidade não o é. Apenas um ténue esquisso. A imagem é como um verniz que se vai desgastando, estalando, com o passar do tempo. Depois voltamos a pôr outra camada, mas jamais é a nossa essência. </div>
 
Hoje assistimos a esta construção e reconstrução do individuo de uma forma única e incomparável. Se as redes sociais ofereceram coisas boas, trouxeram também coisas menos boas. Esta construção do sujeito é cada vez mais permissiva; mais tolerante; mais admissível. 
 
Se antes das redes sociais o indivíduo se apresentava, se mostrava, involuntariamente mascarado e contrafeito (porque faz parte da sua natureza, e porque ainda bem que assim o é); agora tudo é completamente e alegremente consentido. Explico melhor; mostro aquilo que não sou e o outro consciente e deliberadamente quer acreditar na mentira que eu lhe conto. E fazemos todos, parte desta ilusão momentânea que é o mundo virtual. Sim, são momentos; segundos de aparências. Tão céleres, mas também, tão autênticas são estas fantasias que até parecem criar uma alucinação conjunta. 
 
Uma simples fotografia publicada no facebook ou noutra rede social pode ter um impacto imprevisível, cria um mundo paralelo ao real, que ludibria o mais vigilante e atento dos internautas. Onde estás; Com quem estás; O que comes; O que vestes! São várias as interpretações e versões desta imagem, construída ou não.
 
Uma imagem é um fragmento da realidade, que na maior parte das vezes nem chega a ser real, mas tão iludidos estamos ou queremos estar! Aliás a própria fotografia ganhou em qualidade, mas perdeu em emoção, em alma, em espírito. Não lhe atribuímos o mesmo significado, porque temos imensas, porque podemos apagá-las e voltar a fazê-las, podemos retocá-las, alterá-las, melhorá-las na estética. Mas na essência? O que fica? O que se revela? 
 
Aquilo que queremos vender e que o outro compra para nos imaginar. O Outro apenas me imagina, eu sou muito mais; sou o passado, o presente e aquilo que me apetecer agora sonhar do futuro. 

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